Praia do Pesqueiro, Ilha de Marajó

FOTOS DE VIAGEM

Ilha de Marajó-PA

Minha amiga Jayne havia me convidado para passar um fim de semana na casa de sua tia, na Ilha de Marajó. Fiquei interessado. Ela teve o cuidado de me avisar: "olha, não tem conforto, não, é uma casa de madeira numa vila de pescadores". Fiquei mais interessado ainda.

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A vila se chama Praia do Pesqueiro, fica bem ao norte da ilha, no município de Soure, com a praia voltada para leste, de frente para a Baía de Marajó. Tem cerca de 340 habitantes, quatro pequenos comércios e três prédios públicos – uma escola, um posto de saúde e um salão de baile – que são as únicas construções em alvenaria da vila, além da torre da igreja de Santa Luiza.

Fui recebido pela tia Amélia sem qualquer cerimônia, como se eu fosse um velho amigo. Comi peixe assado, farinha, tomei um pouco de cerveja e conversei sobre coisas comuns.

Foi o fim de semana mais feliz que passei em muitos anos.

(Em meio às "coisas comuns" que conversamos, me espantou saber que lá tem meninas de 16 anos que já estão na terceira ou quarta gestação. E que isso não é somente fruto da falta de informação: às vezes é proposital.)


Esta é a Igreja de Santa Luzia, em Pesqueiro. Estive lá em outubro e já estava se preparando o Círio, que é em dezembro.

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O que não dava pra fotografar:

Os cômodos da casa são divididos por meias-parede de cerca de 2 metros. Acima disso, vazio, só o teto e uma lâmpada que é suficiente para a casa toda.

Eu estava dormindo numa rede na sala, com a janela aberta. De madrugada, sinto algo passando nas minhas costas, como um animal caminhando no chão. Me sobressaltei e, com isso, assustei a coisa, que varejou-se pela janela. Mas isso não aconteceu sem ruído. O bicho esbarrou nas paredes, jogou terra por cima da meia-parede na cama onde dormiam tia Amélia e Jayne, acordou todo mundo.

Descrevi o que aconteceu, sem muito detalhes, porque a noite era sem lua e eu estava sem óculos. E tirei minha conclusão: acho que era um urubu... Tia Amélia me escutou com ceticismo (urubu, de noite?) e sentenciou: "era a Matita Pereira". Jayne gritou lá de dentro: "Isso é lenda, tia, isso não existe!", e tia Amélia, quase num sussuro: "Essa daí só acredita nas coisas visíveis."

Ela me conta que no lugar onde os cavalos rolam na areia para se coçar, a mulher rola e fala uma "arrumação" muito poderosa, que tem no Livro de São Cipriano, e se transforma numa mulher com asas. E brinca comigo: "acho que ela veio te namorar".

No dia seguinte, os rapazes mais jovens me garantem: era isso mesmo, era a Matita Pereira, urubu não entra nas casas, ainda mais à noite. E logo depois, no areal que tem no centro da foto lá do alto da página, um cavalo começa a rolar para se coçar. "Viu", um deles me diz, "foi ali."


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