Cenas captadas nas estradas

FOTOS DE VIAGEM

Sempre prefiro viajar de carro, se o objetivo da viagem me permite. O carro dá uma grande flexibilidade à viagem: posso mudar de rota, mudar de idéia, ficar no primeiro vilarejo. De acordo com as circunstâncias, vou de ônibus ou de trem; se for a trabalho, viajo de avião.
Em outubro de 200 , viajei de ônibus pela BR-040 e pela Belém-Brasília, rumo a Carolina-MA. Na estrada, coletei estas imagens.

Não tirei os olhos da janela e quase arrumei um torcicolo.

Minas Gerais é talvez o estado mais bonito do Brasil, por ser muito grande, de cenário muito variado. Sem sair de Minas, a gente vê campos, serras, mata atlântica, cerrado, semi-árido, metrópoles, cidadezinhas, arraiais. Só o que não muda é o povo. Mineiro é igual em toda parte.

Coisa demais pra fotografar.

Neste trecho da BR-040, vi araucárias (árvore símbolo do Paraná!) que pareciam uma couve flor, quando recortadas contra o morro; vi um menino a cavalo com outros correndo atrás; vi um bordel onde as mulheres lavavam a roupa no quintal; vi uma igreja com teto arredondado, em Cristiano Otoni; vi uma moça loira e bonita, sorrindo sem dentes...
Esta avó e seu neto estavam indo para Imperatriz-MA no ônibus da Transbrasiliana em que eu viajava. Do Rio a Belo Horizonte, fomos os únicos passageiros. O menino chama a vó de "mãe". Dormiu o dia inteiro e conversou a noite toda.

Não conheci Imperatriz, onde só fiquei alguns minutos entre um ônibus e outro. Mas segundo ela, é uma cidade bonita, bem cuidada. "Não é tão bonita como o Rio", ela me disse, "tem menos emprego menos emprego e menos assalto." A cidade é conhecida como portão de entrada na Amazônia.

Na hora da foto, estávamos na parada da Transbrasiliana em Gurupi-TO. Lá no fundo da foto tem um grupo, que me observava fotografar...


"Aí, moço, fotografa a gente?", me pediu a mulher à esquerda. Claro que fotografei e eles me agradeceram efusivamente, como se fosse uma grande honraria.

O mulato sorridente me pergunta de onde eu venho e respondo: "do Rio". Ele diz: "Já morei no Rio, na rua Araxá." Fico mudo, um instante: é a rua atrás da minha casa. E ele continua: "construí um prédio lá."

A mulher ainda me pede um dinheiro porque eles ainda não tinham comido nada naquele dia... eram 4h da tarde.

O cerrado muda muito lentamente. A coloração da região de Brasília, onde passei na hora do nascer do sol, é amarelada, quase cinzenta, pela falta de chuvas nesta época.

Não sei como estavam as chuvas mais ao norte, mas à medida que se avança para o Tocantins e daí para diante, os tons vão cambiando para o verde até ficar de um matiz escuro, brilhante e profundo, próximo à cidade de Estreito.

Durante a madrugada, entre Três Marias-MG e Cristalinas-GO, havia muita lua e pouca nuvem. Fiquei olhando para fora e me pareceu que a BR-040 tem uma espécie mata ciliar. Via árvores num primeiro plano e por trás, parecia ser um campo aberto...

Numa noite, perto de Imperatriz, quando já estava indo de Carolina-MA para Belém-PA, fiquei um bom tempo olhando as estrelas, a Via Láctea. Quando baixei o olhar, estávamos passando um campo cheio de vagalumes. Por um instante pensei que estava delirando...
Estreito é uma cidade na esquina da Belém-Brasília com rio Tocantins. Passei lá no pôr-do-sol e tive que me refugiar na cor para registrar o clima da cidade: tranqüilidade e espaço de sobra para as pessoas. A foto foi quando o ônibus manobrava para sair da rodoviária. Clique na foto para ampliar.

Atrás de mim, dois passageiros mexiam com todas as mulheres que passavam. Assim que nosso ônibus passou da Casa Mendes, eles falaram uma gracinha (grossa) para uma estudante adolescente que passava. Ela se dirigiu para a lateral do ônibus, e perguntou, olhando direto para eles, o que eles tinham dito. Não havia enfrentamento no semblante dela: os olhos estavam limpos, ela realmente não tinha entendido o que eles haviam dito. Mas eles não tiveram coragem de repetir.
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Depois da minha estada em Carolina-MA, esperei algum tempo na rodoviária por um ônibus que me levasse para Belém-PA. O calor estava muito forte e ainda estava próxima a estação seca, o "verão" da região norte. No meio da tarde, minha ocupação era olhar os rostos das pessoas que chegavam nos ônibus e desciam para comprar uma laranja descascada (R$ 0,20) ou tomar um banho (gratuito).

Estes garotos não eram passageiros, moravam numa casa próxima. Acho que estavam fugindo do calor. O cachorro era morador da própria rodoviária.

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